Fiz sete léguas de Monjolinho a Imbauzinho. Aqui encontrei um grande povoado. Existia no lugar uma capela linda, uma verdadeira igreja. Possuía uma escadaria de madeira, tendo defronte uma praça cercada de cinamomos e de outras árvores. Havia algumas vendas bem fornecidas de mercadoria. O povoado tinha representante do Coronel Borba, Prefeito da Comarca de Tibagi.
Cheguei à noite. Mal tive tempo para jantar. Fui colocado ao par de tudo por Pedro Machado, chefe da comunidade.Na Missa da manhã seguinte, muita gente com inúmeras crianças. Imaginem que abençoei durante a Missa 8 casamentos todos juntos, e depois da missa, em um primeiro turno, fiz 51 batizados! Tomei rapidamente uma xícara de café com um ou dois pedaços de queijo e comecei o segundo turno de batizados: mais 18 todos juntos, chorando e gritando. Com o calor de janeiro e cansado, de vez em quando tinha a impressão de que iria cair. Chegaram outros noivos e abençoei mais 4 ou 5 casamentos.
Meio dia. Pensei em ir almoçar na casa de Pedro Machado (bom homem!). Mas, chegaram a galope, em esplêndidos animais, um noivo e uma noiva com os respectivos acompanhamentos. Pediram para abençoar logo e depressa o seu casamento. Eram de longe e deveriam voltar o mais rápido possível.
Pedro Machado avisara-me na véspera:
- Cuidado! Amanhã deverá chegar um noivo que quer enganar o padre; ele casou-se na Igreja com uma mulata e a abandonou; esta ainda está viva. Mais tarde, ele se uniu com outra mulher, civilmente, e a mataram numa briga. Agora quer casar-se com uma terceira mulher e na Igreja. O senhor poderá identificá-lo rapidamente. Tem na fronte um sinal profundo, que lhe fizeram com uma bala de revólver numa briga.
Era justamente o tal. Reconheci-o imediatamente por causa da cicatriz.
- Padre, eu quero me casar agora e depressa, disse, porque sou de longe e nós queremos voltar logo.
- Mas agora, eu gostaria de almoçar! E se fizesse o seu casamento mais tarde?
- Não, não, padre, nós queremos agora e depressa!
- Nossa Senhora! O que tens? Fogo em algum lugar do corpo?
Preparei tudo, e estando com roquete e estola no supedâneo do altar, perguntei às testemunhas:
- Vocês sabem se existe algum impedimento entre estes dois noivos?
E eles:
- Não consta; não consta.
No entanto da porta da capela Pedro com a cabeça fazia um sinal afirmativo.
- Sabem, pois, se existe algum impedimento?
- Não, Padre, não há algum impedimento.
Atirando com força o lápis no chão, disse com raiva:
- Contudo não faço este casamento! Não posso fazê-lo.
- Mas, por quê? Perguntou o noivo junto com os demais.
- Por quê? Quantas mulheres você quer na vida?
Enumerei as que tivera, dizendo que a primeira ainda estava viva!
- Você queria enganar o Padre! E poderia ter enganado! Mas não teria enganado a Deus que o conhece muito bem e o julgará!
Passando pelo meio do povo fui tirando a estola e o roquete. Saí da igreja. Estava a poucos passos abaixo da escadaria quando o pai do noivo saiu pela porta da igreja. Levantou a mão com o revólver, gritou:- Amanhã, no sertão, me dirás que se faz ou não o casamento de meu filho.
Respondi:
- Então venha bem cedo, que nos encontraremos na fresca do dia.
Fui almoçar.
Comentei o acontecido com Pedro e com Bonifácio. Este exclamava: "Que raça de gente! Que coragem eles têm!"
Pedro me disse:
- Padre, tenha cuidado. Aquele homem é capaz de tudo! Amanhã, o senhor pode mudar de estrada.
- Eu? Mudar de estrada? Por que? Que culpa tenho eu? Ele quer me matar? Veremos!
Carreguei o revólver por causa das onças que poderia encontrar no sertão. Oras bolas! Alguém quer me prejudicar sem que eu tenha culpa? Minha pele vale tanto quanto a dele; para mim, mais ainda!
Iria para Coqueiro no dia seguinte pela estrada de sempre, não tendo a mínima idéia de mudar rota. No entanto, o tal da cicatriz na fronte e o pai andavam por Imbauzinho, dentro e fora das vendas, dizendo que matariam o padre.
Celebrei a santa Missa, terminei tudo e, preparados os cavalos, chamei Bonifácio de lado e lhe disse:
- Bonifácio, você tem revolver? Muito bem, fique prevenido. Eu irei à frente e você me seguirá. Aquele sujeito prometeu me matar; se nós o virmos primeiro, pronto para executar as promessas, atire você ou atirarei eu! Atiraremos nas pernas, se for possível, e se não, onde puder.
Saímos, caminhando devagarzinho, olhando atentamente todas as árvores grossas e todas as saídas de caminhos. Eu, sempre com a mão no "Steyer" que mantinha engatilhado.
Pedia à Virgem Bendita que não deixasse acontecer nada de grave. No entanto, eu me decidira, pois estava com a razão a meu lado. Deus quis que nada acontecesse! Não vi ninguém! Ninguém me fez nada.